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Se a música brega não é exatamente um gênero – afinal pode se manifestar em forma de bolero, samba, rock, balada –, o que ela é então? Segundo a antropóloga e historiadora Adriana Facina, há vários padrões estéticos que são comuns ao estilo brega. Eles se revelam nos temas, no vestuário, nos gestuais e na forma de cantar. Um desses padrões é o romantismo exagerado, que já estava presente nas canções brasileiras desde o início dos anos 30. Até a década de 50, a música romântica ou “de fossa”, cantada em ritmo de samba-canção, bolero ou seresta, dominou o cenário musical do país, com suas letras sentimentalistas e melancólicas. Cantores como Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues, Vicente Celestino e Cauby Peixoto, entre outros, faziam sucesso com suas vozes graves e performances teatrais, que remetiam ao lirismo do século 19. É de Vicente Celestino, a canção “O Ébrio”, um dos clássicos do gênero, que fez com que a música atingisse um patamar poucas vezes alcançado ao retratar o sofrimento humano: Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou Só nas tabernas é que encontro meu abrigo Cada colega de infortúnio é um grande amigo Que embora tenham como eu seus sofrimentos Me aconselham e aliviam o meu tormento Vale lembrar que, na época, canções como essa de forma alguma eram consideradas de mau gosto. Seus intérpretes eram as estrelas de sucesso do estilo musical dominante daqueles tempos sombrios. Época em que o mundo sofria os efeitos de duas grandes Guerras Mundiais, intercaladas pela Grande Depressão de 1929. E o Brasil ainda era um país agrário e patriarcal, que dava os primeiros passos em direção ao processo de urbanização e modernização. Mas no final dos anos 50, o desenvolvimento urbano, o crescimento econômico e a liberdade política fizeram surgir no Brasil uma juventude de classe média pronta para consumir novos bens reais e simbólicos mais de acordo com a modernidade daqueles tempos. Surgiu então a Bossa Nova, que trouxe uma forma minimalista de cantar, atuar e tocar, além de letras leves e uma harmonia sofisticada. Por contrastar totalmente com o excesso do estilo anterior, acertou em cheio nas preferências daquele novo consumidor urbano. O estilo romântico antigo passou então a ser classificado como de mau gosto ou “cafona”, conforme classificação dada pelo jornalista Carlos Imperial no começo dos anos 60. Apesar da decadência do estilo “de fossa”, alguns artistas continuaram investindo nele. E, ao invés de atenuarem o sentimentalismo exagerado que ajudou a decretar o seu fim, acrescentaram ainda mais drama e tragédia às suas músicas, como em “Eu não Sou Cachorro Não”, composta por Waldick Soriano, e considerada um dos clássicos do genero: Eu não sou cachorro, não Pra viver tão humilhado Eu não sou cachorro, não Para ser tão desprezado Tu não sabes compreender Quem te ama, quem te adora Tu só sabes maltratar-me E por isso eu vou embora. A pior coisa do mundo É amar sendo enganado Quem despreza um grande amor Não merece ser feliz, nem tão pouco ser amado Tu devias compreender Que por ti, tenho paixão Pelo nosso amor, pelo amor de Deus Eu não sou cachorro, não Renegado, o romantismo exagerado, que havia reinado absoluto por décadas nas salas das famílias de “bom gosto” do país, sobreviveu nos quartos dos fundos, das casas dos grandes centros urbanos, e nas regiões rurais. Manteve-se vivo em territórios que não foram alcançados pelas novas tendências culturais do Brasil moderno que nascia. |